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A instabilidade no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do mundo, voltou a acender o alerta para os impactos que conflitos geopolíticos podem causar sobre a produção e o acesso aos alimentos. Nos últimos dias, dados de rastreamento marítimo mostraram que pelo menos oito embarcações — entre petroleiros, graneleiros e navios de transporte de veículos — interromperam a travessia ao tentar deixar o Golfo Pérsico pela costa de Omã. Parte delas só prosseguiu viagem após alterar a rot.
Embora o episódio esteja relacionado ao transporte marítimo, os reflexos podem atingir diretamente a segurança alimentar global. Isso porque o Estreito de Ormuz é responsável pela passagem de aproximadamente 35% das exportações mundiais de petróleo bruto, 20% do gás natural liquefeito (GNL), 20% dos fertilizantes comercializados globalmente e cerca de 50% das exportações de enxofre — insumos estratégicos para a produção de alimentos.
O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Qu Dongyu, alertou no último mês de junho que o maior risco não é uma escassez imediata de alimentos, mas a interrupção da cadeia de fornecimento de fertilizantes, essencial para manter a produtividade agrícola. Segundo ele, agricultores da Ásia, África e América Latina já enfrentam aumento dos custos de produção e dificuldades para planejar as próximas safras diante da incerteza no abastecimento desses insumos.
A preocupação é especialmente relevante para países como o Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas que ainda depende fortemente da importação de fertilizantes. A elevação dos custos desses produtos pode impactar toda a cadeia produtiva, pressionando os preços dos alimentos e dificultando o acesso da população a uma alimentação saudável e adequada.
Para a FAO, a manutenção do comércio internacional, a proteção das rotas logísticas e o uso mais eficiente dos fertilizantes são medidas urgentes para evitar que a crise geopolítica se transforme em uma crise alimentar. A organização também defende investimentos em agricultura de precisão, mapeamento de solos, sistemas produtivos mais eficientes e alternativas sustentáveis, como biofertilizantes e amônia verde.
O cenário reforça que a segurança alimentar vai além da produção agrícola. Ela depende de cadeias de abastecimento resilientes, do acesso a insumos estratégicos e de políticas públicas capazes de minimizar os impactos de crises internacionais sobre a disponibilidade e o custo dos alimentos. Em um contexto marcado também pelos efeitos das mudanças climáticas, a combinação de riscos geopolíticos e ambientais representa um dos maiores desafios para os sistemas alimentares globais e para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada.
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