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Um estudo publicado recentemente na revista Nature analisou a evolução da obesidade entre 1980 e 2024 em 197 países e mostrou que o fenômeno apresenta comportamentos distintos ao redor do mundo. A pesquisa, coordenada pela rede internacional NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC) integrada por cientistas de vários países, incluindo os brasileiros Alicia Matijasevich e Paulo Andrade Lotufo, ambos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), reuniu dados de 4.050 estudos populacionais, envolvendo 232 milhões de pessoas com cinco anos ou mais.
Além dos resultados, os cientistas questionam o uso do termo “epidemia global” para descrever a obesidade. Segundo os autores, essa classificação pode simplificar excessivamente um fenômeno complexo, marcado por diferenças importantes entre países, regiões, faixas etárias e gêneros. Para eles, tratar a obesidade como uma única epidemia mundial acaba mascarando fatores sociais, econômicos, culturais e tecnológicos que influenciam sua evolução em cada contexto.
Os resultados indicam que, embora a obesidade tenha aumentado globalmente nas últimas décadas, o ritmo de crescimento desacelerou ou se estabilizou em muitos países de alta renda, enquanto segue acelerado em países de renda média e baixa. Segundo os pesquisadores, fatores sociais, econômicos, culturais e tecnológicos ajudam a explicar essas diferenças, além da renda.
O professor Majid Ezzati, do Imperial College London, esclarece que a classificação da obesidade como uma única “epidemia global” não reflete a diversidade de cenários observados. Na Europa Ocidental, a prevalência da obesidade em adultos estabilizou entre 11% e 23%, enquanto em crianças e adolescentes ficou entre 4% e 15%. Países como Dinamarca, Islândia, Suíça, Bélgica e Alemanha registraram desaceleração do crescimento dos casos desde os anos 1990. Já Finlândia, Austrália e Suécia continuam apresentando aumento constante da obesidade.
O estudo também aponta que fatores como acesso à saúde, normas culturais, condições socioeconômicas e papéis de gênero influenciam significativamente os resultados. Os pesquisadores observam ainda que medicamentos à base de GLP-1, como Wegovy e Ozempic, tiveram impacto mínimo nas tendências históricas devido à baixa utilização até o momento, mas podem influenciar os índices de obesidade nos próximos anos.
Para Ruth Guilherme, diretora da ASBRAN e coordenadora da Comissão Intersetorial de Alimentação e Nutrição (CIAN) do Conselho Nacional de Saúde, é necessário superar a compreensão da obesidade como resultado exclusivo de comportamentos individuais e reconhecê-la como um problema influenciado pelos determinantes sociais da saúde. “Felizmente estamos avançando nesse movimento, sobretudo por meio do Controle Social e de algumas políticas públicas. Não basta apenas perguntar por que as pessoas estão engordando. É preciso ir além e compreender que sociedades, ambientes e sistemas alimentares estão produzindo esse padrão. A obesidade precisa ser analisada dentro dos contextos econômicos, sociais e culturais que moldam as possibilidades de escolha e os modos de vida.”
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